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Seedcast em português: Nara Baré — Os povos indígenas seguram o planeta

June 22, 2022 Nia Tero Season 2 Episode 7
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Seedcast em português: Nara Baré — Os povos indígenas seguram o planeta
Show Notes Transcript

“É como se os povos indígenas estivessem segurando todo o planeta. Vai chegar um momento em que, se vocês não vierem conosco também para essa luta, a gente não vai conseguir sozinho.” — Nara Baré  

Neste episódio do Seedcast, apresentamos Nara Baré, da Nação Baré. A história da Nara é de empoderamento por meio do conhecimento. Ela nos conta como, a partir de sua trajetória de educação e sua participação em manifestações estudantis, ela se aproximou do movimento mais amplo de apoio à soberania territorial dos povos indígenas em toda a Amazônia brasileira. A Nara é a primeira mulher a desempenhar o papel de coordenadora-geral da COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira). Anfitriã / Produtora: Marianna Romano. Editora de histórias: Jenny Asarnow.  

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Seedcast em português: Nara Baré — Os povos indígenas seguram o planeta
22/06/22

MARIANNA ROMANO: [INTRO] Olá, eu sou a Marianna Romano. Hoje estou aqui apresentando o programa Seedcast, entrando no lugar da Jéssica Ramirez, porque o programa de hoje vai ser um pouco diferente: ele vai ser totalmente em português. Esse é o Seedcast em português. 

[MÚSICA-TEMA DE MIA KAMI]: Estamos de pé, ouçam nosso chamado. Fincamos raízes no chão, estamos aqui para ficar. Nada de ficar calado, estamos unidos. Fincamos raízes no chão, não podem nos derrubar. Estamos aqui para ficar... 

MARIANNA: Seedcast é um programa que honra as tutelas indígenas, o direito intrínseco dos povos indígenas e sua responsabilidade em governar e administrar os territórios coletivos, usando suas próprias leis e valores, cultura, linguagem e práticas tradicionais. E no episódio de hoje, a gente vai lá para o Rio Negro, e você vai ouvir da Nara Baré, que faz parte do povo Baré. Ela é a primeira mulher a chegar no cargo de coordenadora na maior organização indígena do Brasil. A história da Nara Baré tem muita luta, muito enriquecimento cultural, educacional, e a gente vai acompanhar ela desde o comecinho. Então, vamos lá. 

[música de fundo] 

MARIANNA: [00:00:01] Nossa história começa no extremo noroeste do Brasil. Lá, existe uma região que faz fronteira com a Colômbia e também com a Venezuela. Se você olhar a forma dessa região no mapa, vai perceber que ela se parece muito com a cabeça de um animal. Dá para ver a boca, assim, meio semiaberta, as duas orelhas, o começo do pescoço; é, bem assim, uma cabeça mesmo.  

NARA: BARÉ: [00:00:25] Conhecida como Cabeça do Cachorro pra vocês, por causa do semblante no mapa, mas que para a gente é Cabeça da Onça.  

MARIANNA: [00:00:33] Foi lá, na região da Cabeça do Cachorro, que nasceu Nara Baré. Mas para ela e para outros que cresceram lá, a cabeça é, na verdade, de uma onça. 

NARA: [00:00:43] Quando os não indígenas foram traduzir, acharam que era um cachorro. Eu venho de lá, da Amazônia brasileira, e esse é o lugar de onde eu venho. Essa é a minha casa.  

MARIANNA: [00:00:55] Nara, assim como a onça, é da Amazônia. É o lugar que Nara e muitos outros lutam para proteger — proteger daqueles que veem o seu lar como local de negócios. Em todo o mundo, empresas buscam na Amazônia produtos como carne e madeira, às vezes comprando de fornecedores ilegais. Essa ilegalidade está destruindo a Amazônia como a conhecemos. Essa é a história de como Nara Baré saiu da sua região para se dedicar à luta e aos estudos e se tornou uma voz importante pelos direitos de seu povo e da natureza.  

NARA: [00:01:34] É uma trajetória bem interessante, e sempre quando eu falo, a gente sempre fala, porque muitas mulheres acabam também se enxergando na nossa história, porque não é diferente. A gente só fala que o tempo é outro, então cada mulher tem o seu tempo de sair da sua comunidade, de entender esse mundo aqui fora e de entender o nosso próprio meio entre nós, internamente. Eu sou a Nara, do povo Baré. Meu nome indígena, na minha língua é Iandara. Iandara significa meio-dia, é que é aquele sol forte.  

 MARIANNA: [00:02:17] Nara é apelido para Francinara. Ela nasceu em 1978, em São Gabriel da Cachoeira. Lá, nove em cada dez pessoas são indígenas, mais do que em qualquer outro lugar do Brasil. A cidade fica onde seria a nuca da onça. O Rio Negro corre por lá. 

 NARA: [00:02:36] E o povo Baré habita toda a calha do rio Negro, desde o Brasil até Colômbia, Venezuela. Esse é o nosso território. Mas o próprio povo Baré, nós somos senhores das águas. Então nós temos uma ligação muito forte com a água.  

MARIANNA: [00:02:53] E foi entre essas águas que Nara passou a sua infância. Em casa, seus pais já tinham notado que ela tinha uma personalidade forte, sempre curiosa e um pouquinho rebelde.  

NARA: [00:03:05] A mamãe dizia que eu sempre era a rebelde de casa. Então eu perguntava muito, questionava.  

MARIANNA: [00:03:11] Por exemplo, uma vez, quando Nara estava na escola, lá para os seus nove anos de idade, ela ouvia um burburinho vindo de dentro do ginásio esportivo — sabe aqueles grandes de escola? Parecia que tinha muita gente lá dentro. Então, ela entrou para dar uma olhada.  

NARA: [00:03:27] E eu vi o ginásio repleto de lideranças, e a gente ainda não chamava esse nome de liderança.  

MARIANNA: [00:03:33] Na época, ainda não tinha essa denominação de lideranças, mas o que ela presenciou foi a primeira reunião das Confederações do Rio Negro, as lideranças da região. Nara ficou impressionada com o que viu, embora não entendesse muito bem.  

NARA: [00:03:48] Eu não sabia o que estava acontecendo. Ainda não era tão claro, também, essa própria força do movimento indígena para nós, naquela época jovem, daquele período da década de 80. Mas eram só homens: a gente não via mulheres, a gente não via jovens, tampouco crianças (como quando a gente está na comunidade).  

MARIANNA: [00:04:10] Você imagina: você é uma criança e dá de cara com uma cena de pessoas falando várias coisas que parecem ser superimportantes, mas vê apenas homens com direito de falar. Mesmo sendo uma criança, Nara percebeu, de cara, que aquela configuração era muito diferente do que ela via em sua comunidade.  

NARA: [00:04:28] E eu me perguntava por que as mulheres não estavam lá.  

MARIANNA: [00:04:31] Ela ficou meio encafifada, pensando ali o que tinha acontecido, até que uma mulher levantou da plateia, e essa mulher pediu o microfone. O nome dela era Dona Joaquina. Ela era mãe de uma colega de Nara, de um povo diferente, e mal falava português. Mesmo assim, Dona Joaquina pegou o microfone e começou a falar.  

NARA: [00:04:55] Foi uma das únicas mulheres que falaram naquela plenária: falar sobre si própria e do espaço da mulher, que a gente precisa sim estar aqui conversando, dialogando com vocês, de serem ouvidas. Então, aquele processo para nós, do Rio Negro, de uma mulher pegar o microfone, foi importante para a gente ver. E ela mal falava português.  

MARIANNA: [00:05:15] Dona Joaquina falou sobre a importância de as mulheres fazerem parte de discussões como aquelas, que era importante que fossem ouvidas, que tivessem uma voz ativa na comunidade. Aquela imagem da única mulher falando entre homens é algo que Nara nunca esqueceu. Nara estava começando a entender o funcionamento do mundo em que vivia. Em casa, seus guias eram sua própria família, que lhe davam apoio e acolhimento: como por exemplo, a avó de Nara, que era uma mulher muito sábia, mas que teve poucas oportunidades na vida. A história dela é a seguinte: ela cresceu sob os cuidados de freiras, aprendendo algumas coisas com elas, mas não chegava a ser uma escola de verdade. Até que ela se casou com o avô de Nara. Ela não teve a chance de estudar de fato e viu como isso podia ser um atraso na vida. Mas ela se tornou parteira e costumava conversar com a Nara. Nessas conversas, Nara aproveitava para perguntar como eram seus antepassados — é natural ficar curioso sobre isso — mas sua avó não gostava de falar sobre o passado.  

NARA: [00:06:24] Quando a gente perguntava sobre a nossa história, de como foi, ela não gostava de falar. Ela dizia que o passado tinha que ficar lá atrás, porque toda vez que “fala o passado”, você relembra. É como se ele viesse novamente, e ela não queria aquilo porque ela dizia assim: “Hoje, você é gente” — como se ela não fosse gente. E aquilo para mim, eu tinha meus 12 anos, eu não entendia. Depois eu fui entender o do porquê, da própria violação pelos missionários, pela Igreja, de impor de a gente não falar a nossa língua, de a gente não se dizer também, enquanto povos indígenas, enquanto liderança; porque o sinônimo de você ser indígena naquela época era sinônimo de você ser burro, entendeu, de você não ter capacidade, naquela época.  

MARIANNA: [00:07:09] Essa subjugação à qual os indígenas brasileiros eram submetidos era evidente para qualquer um que prestasse atenção na mídia da época — ali pelos anos 80, 90, especialmente para o que se considerava o humor. A ignorância, machismo, homofobia e classismo foram as bases do riso da família brasileira por muito tempo e, em diversos lugares, continuam sendo. Mas os pais de Nara eram críticos dessa cultura da ridicularização e imposição cultural e faziam questão de ir contra, participando de grupos e apoiando os movimentos indígenas. Nara ainda era pré-adolescente e não participava diretamente nos grupos, mas ela estava atenta, na própria casa, observando a movimentação que estava ocorrendo. Ela costumava ver seu pai ir e vir com líderes do movimento indígena. Ele não era um cacique, mas estava envolvido com a política do seu povo à sua maneira. Já a mãe de Nara participava em rodas de conversa com outras mulheres, e essas conversas tinham um efeito de se alastrarem pelo boca a boca, espalhando ideias. Havia uma diferença clara entre a forma como cada pai participava.  

NARA: [00:08:23] Então as mulheres, elas sempre tiveram uma participação, mas não de uma forma direta. Elas não falavam lá no meio das reuniões, mas elas falavam para os seus maridos e para os seus esposos, e nas rodas de conversa, dizendo que aquilo estava errado; e eles acabavam falando novamente lá, mas não eram elas. Então, esse poder de voz lá para São Gabriel da Cachoeira, [inaudível] foi importante e acredito que essa história também se repete em outros momentos.   

MARIANNA: [00:08:48] Essa era a realidade da participação política das mulheres em sua comunidade e, provavelmente, de muitas outras. Sem o poder direto de fala, as mulheres recorriam de forma autônoma a conversas entre si, na esperança de que seus maridos ecoassem o que diziam. Os pais de Nara queriam que sua filha tivesse uma chance de um futuro bom e para isso, achavam que ela deveria continuar seus estudos em outro lugar. Para eles, a educação formal era um caminho para isso: era uma ferramenta de liberdade.   

NARA: [00:09:20] Porque na aldeia só tinha até o quarto ano, a não ser que você fosse onde tinha as missões salesianas, ou "vim” para São Gabriel da Cachoeira (já estava em São Gabriel, minha família toda veio desde a mamãe, que ela foi interna na escola).  

 MARIANNA: [00:09:34] A mãe de Nara, por exemplo, sentiu na pele o que era não poder sair. Ela estudou em São Gabriel da Cachoeira mesmo, mas era um colégio interno, onde o ensino era limitado pela religião e visão de mundo que ensinavam ali. Então, expandir o universo escolar poderia ser também uma chance de expandir também o mundo do futuro da Nara. 

NARA: [00:09:55] Houve muito investimento no estudo. Então, contra a minha vontade, os meus pais me mandaram para Manaus para estudar.  

MARIANNA: [00:10:01] Nara não queria ir embora, ela queria ficar em casa, no próprio povoado. Mas assim que ela terminou o nível básico de educação, os pais dela a enviaram para Manaus para terminar o ensino médio. E ela foi. A cidade de Manaus é a capital do estado do Amazonas. Ela é muito mais populosa do que São Gabriel da Cachoeira, como você pode imaginar, mas é muito menor em área, ou seja, é uma concentração muito densa de pessoas. Manaus é uma cidade grande: ela é cosmopolita, vibrante e empreendedora. E toda essa diversidade de povos que existe no Amazonas e na Amazônia não se traduziu imediatamente em como Manaus tratava os povos indígenas, infelizmente. O racismo e o preconceito tornavam a vida das pessoas muito mais difícil. Os crimes contra os povos indígenas só aumentavam na época que Nara se mudou para lá.  

NARA: [00:10:56] Que muitos indígenas — somos 60 povos no estado do Amazonas — quando iam para Manaus sentiam muita dificuldade (de preconceito, de racismo nas escolas) e muitos cometeram suicídio porque eles não conseguiam entender esse outro mundo, então acabou se criando... 

MARIANNA: [00:11:11] E frente a essa realidade das dificuldades que os estudantes indígenas passavam, um grupo foi criado, e Nara se juntou a ele. Esse grupo era onde, juntos, colegas estudantes indígenas podiam se sentir apoiados uns pelos outros, mesmo estando tão longe de suas comunidades de base.  

NARA: [00:11:31] Então, acabou se criando esse movimento dos estudantes, que é o Movimento dos Estudantes Indígenas do Estado do Amazonas, para a gente não só se sentir em casa e ter o apoio do outro, mesmo de povos diferentes, mas também de buscar alternativas para a continuidade nossa na capital; porque nós não tínhamos recursos, então “você vir”... as famílias, nós vivemos muito do roçado, da pesca, então não são todos os que tinham dinheiro para manter seus filhos na cidade.  

[música de fundo] 

MARIANNA: [00:12:02] Durante esse tempo no movimento estudantil, Nara pôde sentir um primeiro gosto de como era articular com outras instituições, com o governo, com o Estado, com outras agências em prol de causas maiores do que só o individualismo. Então, ali ela percebeu que tinha muitas maneiras de fazer a diferença, e que juntos isso podia ser possível. Foi com esse grupo que ela percebeu isso. As organizações com quem eles estavam articulando e discutindo, antes, pareciam fora de alcance, como parecem para a maioria de nós. Ela diz que esse é o ponto onde ela sente que sua luta começou.  

 NARA: [00:12:41] Então nós começamos assim a minha vida mesmo, de um movimento de luta, de estar discutindo, dialogando com o governo, com o Estado e com a própria COIAB na época, foi através do MEIAM.  

MARIANNA: [00:12:52] Bom, como a Nara já adiantou ali, uma das organizações com as quais os alunos trabalhavam nesse período foi a COIAB. A gente vai falar muito dela, então guarda esse nome, se é que você já não conhece o trabalho da COIAB, que é superimportante. A COIAB se tornou central na sua vida e é vital para a luta indígena no Brasil.   

NARA: [00:13:13] A COIAB é a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira. A COIAB é a organização maior da Amazônia, do Brasil, de toda a região, então essa é a missão da COIAB. É sempre na defesa dos povos indígenas da Amazônia brasileira: defender não somente os mais de 180 povos indígenas da Amazônia, mas também preservar pela autonomia, pela segurança dos mais de 114 povos indígenas isolados que existem na Amazônia: em todo o planeta, só há na Amazônia.  

MARIANNA: [00:13:51] A importância de organizações como a COIAB no Brasil precisa de um pouco de contexto. O Brasil, como você deve saber, passou por uma ditadura entre 1964 a meados dos anos 80, iniciada por um golpe militar. Segundo Nara, até então, as tribos no Brasil pensavam que cada uma existia sozinha, isolada, cada um no seu território.  

NARA: [00:14:14] Antes do período da Constituinte (a pré-Constituinte), nós achávamos que só existíamos nós, cada um no seu território.  

MARIANNA: [00:14:21] Essa paz foi abalada pela ditadura. A Amazônia, já naquela época, era vista como um lugar estratégico de negócios para a extração de riquezas. A partir daí, ocorreram vários incentivos para essa exploração. Essa política tinha o lema de integrar para não entregar, e, durante os anos 70, tanto a floresta quanto os povos indígenas sofreram com esse plano de suposto desenvolvimento. Tribos isoladas foram encontradas em seus territórios e dizimadas durante um ataque genocida em massa. Muitas vidas foram perdidas, muitos povos sumiram nessa época.   

NARA: [00:15:00] E, como vimos, todo o massacre, o genocídio que a Amazônia estava passando durante a ditadura militar, com o lema de integrar a Amazônia para não entregar...   

MARIANNA: [00:15:11] Esse lema, de integrar a Amazônia para não entregar, foi um lema usado na ditadura, que visava uma unificação do país. Queriam um desenvolvimento total e uma exploração das terras, inclusive amazônicas, custasse o que custasse. E durante essa exploração toda, os povos indígenas resolveram se unir e ir até Brasília.   

NARA: [00:15:34] Nós tivemos que ir até Brasília em marcha, com o apoio de parceiros. Alguns de canoa, outros andando, foram de ônibus, de avião. Então, muitos nem falavam português, muito menos a escrita do português.  

 MARIANNA: [00:16:13] Mas, terminada a ditadura, o país tentou recomeçar com uma nova Constituição, e nela havia artigos escritos para proteger os povos indígenas. Pela primeira vez, esse documento reconheceu que os povos indígenas foram os primeiros e originais ocupantes das terras brasileiras. E vou ler aqui um trechinho da Constituição onde os povos indígenas são mencionados, mas eu queria avisar que o texto é um pouco antigo, então lá está escrito “índios” em vez de “indígenas”. Eu vou ler da forma que está escrito, então, ficou esse aviso aí. “Capítulo 8, Dos Índios, artigo 231: São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. Parágrafo primeiro: São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.” Bom, o texto segue, tem alguns capítulos também sobre como as terras são, na verdade, propriedades da União, e esse documento existe, em teoria, para proteger os povos indígenas de invasores. E o que significa que a terra seja da União? Significa que, embora os povos indígenas tenham direitos de uso sobre a terra, cabe ao governo federal dizer quais áreas podem ser ocupadas e por quem. Esse processo é o processo de demarcação, e é uma questão muito importante no Brasil quando se trata da proteção indígena. Essa mesma Constituição estabeleceu que, até 1993, todas as terras indígenas fossem demarcadas, mas isso não aconteceu até hoje, e muitos povos indígenas continuam esperando que o governo cumpra essa promessa.  

NARA: [00:18:24] Para poder garantir esses dois artigos, que são importantes na Constituição federal, de nos reconhecer não somente enquanto povos originários desta terra, mas também a nossa organização, de como nos organizamos; e o próprio Estado tendo o dever de cumprir com sua obrigação de Estado de reconhecer e demarcar todas as terras indígenas do Brasil. E estamos mais de 30 anos da promulgação da Constituição federal, e até hoje a nossa bandeira de luta é Demarcação Já, porque os nossos territórios não foram demarcadas, e os nossos territórios acabam não sendo nossos. Nós não somos donos das nossas próprias terras: o Estado nos dá apenas o poder de usufruto exclusivo do território.  

MARIANNA: [00:19:19] Esse descaso com a demarcação das terras indígenas pode ter consequências fatais para os povos que vivem lá. Ao longo de muitas décadas, os povos indígenas viram seus territórios serem invadidos, subdivididos e explorados por interesses econômicos como mineração, pecuária, soja e grandes projetos de infraestrutura, mas que não levam em conta as vidas que existem lá, tanto de fauna, de flora, como de pessoas. E o que acontece nessas invasões? Desmatamento, assassinatos de lideranças indígenas, migrações forçadas, reduções de terras indígenas, epidemias induzidas. Imagina ter que viver com esse medo. Por isso, os povos indígenas recorrem ao processo de autodemarcação.  

NARA: [00:20:12] Por isso que nós fazemos o nosso processo de autodemarcação nas terras, que, nesse período, está totalmente paralisado por esse desgoverno, e também fazemos o processo de autovigilância. Então, o monitoramento, a fiscalização e a vigilância dos nossos territórios são de suma importância para que não tenha cada vez mais esse avanço de grandes mineradoras, de garimpeiros, de grileiros, de madeireiros, de missionários dentro das terras indígenas para tentar nos usurpar.  

 [música de fundo] 

MARIANNA: [00:20:44] Então, quando a Nara entrou em contato com a COIAB e viu o poder que os povos tinham quando se uniam em direção a algo em comum, ela sentiu um chamado para continuar nesse caminho.  

NARA: [00:20:55] Então essa é a missão da COIAB: é uma missão política, mas é também uma missão que a gente sempre traz da defesa de um direito fundamental que nós temos, que é o direito à vida que todo ser humano tem, e nós também temos e queremos e vamos ter, porque nós já estamos tendo, também, com muita luta e resistência.  

MARIANNA: [00:21:15] Para Nara, parte fundamental dessa resistência é entender que para você se comunicar ativamente, seja com o povo ou com o Estado, você precisa saber falar de igual para igual. E para isso, a maior ferramenta de poder é o conhecimento.  

NARA: [00:21:29] Que para a gente estar lutando e dialogando, seja com o Estado, seja com o parceiro, seja com quem quer que seja, a gente precisa estar de igual para igual. E, para isso, a maior ferramenta que tem de poder é o conhecimento.  

MARIANNA: [00:21:43] Essa máxima da busca do conhecimento está na vida da Nara desde lá de trás, com os pais dela dando importância para os estudos e investindo nisso para a vida dela. E a COIAB tinha programas educacionais; então, quando eles anunciaram um novo programa que ia acontecer, ela aproveitou a chance de entrar e entrou. Lá ela estudou gestão ambiental e ela teve uma grata surpresa quando as aulas começaram.  

NARA: [00:22:09] E a minha turma foi a primeira turma paritária, de dez homens e dez mulheres, porque antes só os homens vinham. A formação era só para os homens: é como se as mulheres ainda não fossem enxergadas naquele momento.  

MARIANNA: [00:22:21] Durante esse tempo, estudando no CAFI, que é o Centro de Formação Indígena, ela viu como o conhecimento técnico podia potencializar a luta indígena, porque a sua turma estudou temas como fiscalização e proteção de terras indígenas, sistema de informações geográficas, legislação ambiental e indígena, entre outras matérias que são muito práticas e úteis nessa luta. E esses tesouros, eles iam levar de volta para cada uma de suas comunidades em algum momento. Esse foi um momento de muito aproveitamento para Nara; mas, ao mesmo tempo que a COIAB começava a abrir suas portas para todos os gêneros, ela também estava enfrentando dificuldades. Várias instituições indígenas estavam sofrendo de problemas administrativos e, por isso, sofreram um corte de fundos.  

NARA: [00:23:09] E a COIAB passou por uma dificuldade muito grande de gestão no passado, onde (...) problemas internos em todas as organizações, instituições, e a COIAB também passou por esse momento.  

MARIANNA: [00:23:22] E não faltava gente que quisesse ajudar, mas isso só se traduz num número grande de pessoas se você considera que mulheres são gente também, e que têm capacidade plena de poder ajudar e se organizar e se movimentar para levantar uma instituição de novo. Mas a realidade, até então, não era bem essa.  

NARA: [00:23:42] A COIAB sempre teve, dentro das suas organizações, coordenadoras secretárias. É como se nós sempre fôssemos as secretárias dos homens. Era essa a visão, "tem que fazer isso", "anota aquilo", "faz carta para aquilo"; e a mulher era muito mais do que isso, nós somos, não era, nós somos muito mais do que isso. Então veio a mulher, a primeira vice-coordenadora da COIAB — porque, depois de um período sendo secretárias e secretárias, veio a primeira mulher vice-coordenadora da COIAB, que foi a Sônia Guajajara.  

MARIANNA: [00:24:14] A Sônia Guajajara é provavelmente a ativista indígena mais conhecida hoje no Brasil. Em 2018, ela foi a primeira indígena a compor uma chapa presidencial junto com o Guilherme Boulos. Ela foi pré-candidata à Vice-Presidência do Brasil. Ela tem voz no Conselho de Direitos Humanos da ONU e, há dez anos, leva denúncias a vários lugares. Inclusive, ela entregou o prêmio Motosserra de Ouro para a Kátia Abreu, na época em que ela era ministra da Agricultura, em 2010, como um protesto contra as alterações no Código Florestal. Bom, a gente estava falando sobre como as mulheres ainda eram muito subestimadas antes da época em que a Sônia se tornou vice-coordenadora. Vamos aqui ouvir um pouquinho a Sônia falar sobre essa questão das mulheres.  

SÔNIA GUAJAJARA: [00:24:59] Esse processo de construção coletiva que nós estamos fazendo com as mulheres indígenas foge desse padrão da democracia que existe no Brasil. O que... nós não queremos essa democracia representativa. Nós queremos hoje construir uma democracia que de fato, considere a participação de todas as mulheres indígenas em todo o processo.  

MARIANNA: [00:25:24] É, esse é o objetivo, mas eu vou voltar aqui para a nossa história porque naquele ponto, na verdade, as mulheres ainda eram muito subestimadas, vistas como apenas secretárias, sem capacidade técnica. E elas sabiam que isso não era verdade. E a Nara representava esse, essa potência, essa potência do estudo, essa potência do conhecimento, que tinha o poder de demonstrar que as mulheres eram tão capazes quanto qualquer um de transformação. E assim, a COIAB estava perigando fechar as portas de vez, isso não era hora de dizer quem podia e quem não podia ajudar; mas infelizmente a sociedade funciona de outra forma. Mas, mais uma vez as mulheres, de forma autônoma, fizeram o que achavam que deviam.  

NARA: [00:26:10] Então, em 2013, no Território Umutina, no estado do Mato Grosso, a convite de várias lideranças e, principalmente, das mulheres, de fazer a diferença nessa gestão, "você é jovem, você está em Manaus, a COIAB está passando por dificuldades". 

MARIANNA: [00:26:26] É, essas ações de chamada aberta são efetivas, mas também são limitadas. Elas queriam ter uma voz ativa dentro das instituições, e aí as colegas da COIAB, que trabalhavam com a Nara nessas articulações, falaram: "Por que você não concorre ao cargo de coordenadora-tesoureira? Você tem uma formação de administração e também financeira, já teve experiência com isso. Por que não?" 

[música de fundo] 

NARA: [00:26:52] Então, foi um pedido das mulheres, que me chamaram, em 2013, e eu concorri ao cargo de coordenadora-tesoureira, porque a minha área sempre foi a administrativa-financeira, sempre atuei nessa área. E fiquei naquela decisão. Então, ao mesmo tempo que as mulheres falavam e choravam e me abraçavam, falando "você vai", é como se eu fosse a esperança de continuar e de mostrar para os homens que a gente é capaz, sim, de muitas coisas, e principalmente de gestão.  

MARIANNA: [00:27:24] Só que essa candidatura representava também um momento de decisão para Nara. Ela, naquela época, em 2013, estava indo para o último ano de faculdade de Administração na Universidade do Estado do Amazonas; e ela também estava com um filho de 1 ano na época. Então, assim, encarar uma candidatura, um cargo de responsabilidade, de coordenação, ou focar nos estudos e na vida pessoal, não era uma decisão pequena para ela fazer; mas ela acreditava que ter uma mulher em cargos assim poderia ter uma diferença nas sutilezas.   

NARA: [00:27:58] Que a nossa gestão, ela é com muito mais responsabilidade e detalhes, a mulher tem mais detalhes de compreender e de ver, enfim, fui eleita a coordenadora-tesoureira em 2013.   

MARIANNA: [00:28:11] Pois é, a Nara acabou decidindo pela candidatura e se elegeu, mas a COIAB não abriu as portas logo depois da eleição. Ela continua fechada por dois anos. Ela entrou em 2013 e, desse período até 2015, foram anos muito difíceis. Mas com a COIAB de portas fechadas, o trabalho que tinha que ser feito agora era voltar para as bases e dialogar com elas, perguntar o que precisavam e como podiam ser uma melhor organização para os povos indígenas. Mas a Nara encontrou muita resistência dos lugares aonde ia.  

NARA: [00:28:46] Não foi fácil. Não foi fácil, naquele momento, primeiro pelo fato de eu ser mulher. Muitas lideranças, elas não me ouviam porque eu sou mulher, e eles me viam como uma jovem inexperiente, que nunca fui coordenadora de nenhuma organização de base, nunca fui executiva de nenhuma organização de base. Eu não sou... não venho de linhagem de filhas de caciques.  

MARIANNA: [00:29:08] Então, em cima de todo o trabalho que a Nara estava tentando fazer, ela tinha que uma e outra vez ter que ficar se provando, falando para as pessoas que ela era capaz e mostrando os planos que ela tinha. 

NARA: [00:29:20] Numa live até perguntaram de mim, os jovens, "quem é Nara Baré?" Eu sou como vocês, uma pessoa normal.  

MARIANNA: [00:29:27] É, uma pessoa normal, mas que sentiu a responsabilidade batendo num outro lugar.  

NARA: [00:29:32] Eu sou normal, é que lutei e vi e senti dentro do meu coração, do meu sangue, a própria responsabilidade que não era só para mim e que não era só para o meu filho e não era só para o meu povo, mas de ver a própria história de luta da COIAB, a história de todas as lideranças que passaram por frio, passaram por fome, que chegaram em Manaus, não tinham onde ficar, e quem acolheu foi a Associação das Mulheres do Rio Negro, AMARN, que acolheu a eles. Então, por todas as dificuldades, não tinha que acabar por erros de pessoas que passaram lá atrás, porque nós somos seres humanos, a gente erra. Quem nunca errou gente, é porque nunca fez nada, então não tem como errar. Mas é com os nossos erros que a gente aprende.  

MARIANNA: [00:30:23] E a Nara seguiu firme no plano de fazer uma turnê pelas comunidades e conversar com elas, apresentando planos políticos e técnicos para proteger a Amazônia e recuperar também a COIAB. Esses planos eram frutos de anos de preparação e de estudos técnicos; e foi demonstrando competência nesses planos que ela finalmente foi ouvida.  

NARA: [00:30:44] Nós pedimos oportunidades disso; então, do trabalho que a gente veio fazendo e desenvolvendo, foi que depois os próprios caciques falaram: "Você precisa continuar". Então, foi através do convite e do plano político que a gente olhou para a Amazônia, para a defesa da Amazônia, por todos os desafios que estavam vindo, falaram que era o momento, sim, de mudar — de ouvir não só os jovens, mas de ouvir e apoiar as mulheres. Então, as mulheres, elas vieram assim muito forte.  

MARIANNA: [00:31:17] E foi através da sua visão de mundo e da competência que ela demonstrou que Nara passou de coordenadora-tesoureira a um cargo maior.  

NARA: [00:31:27] Então, em 2017, eu fui eleita a primeira mulher indígena a estar no cargo de coordenadora-geral da COIAB. Nunca houve isso. A COIAB, em mais de 30 anos, foi que entendeu e, as pessoas até falam, amadureceu. Não é questão de amadurecimento, mas é do respeito que tem da nossa luta, do nosso envolvimento, e que não há uma disputa entre homens e mulheres, mas há uma força de união, de somar para essa luta. Então, é a primeira vez também que, na coordenação, há uma coordenação paritária: são dois homens e duas mulheres, quando nós fomos eleitos na época. Então, além de ser uma coordenação paritária, foi uma organização mais jovem, e com um olhar, um braço técnico: político e técnico. Então, a gente acredita também que essa foi a diferença, do choque de gestão que a COIAB precisava naquele momento.  

MARIANNA: [00:32:28] E a Nara foi eleita por uma assembleia composta majoritariamente por homens. Esse choque de gestão, como ela diz, anda de mãos dadas com a visão que ela quer para o futuro: e não só para o futuro não, para o agora. Esses áudios que você ouviu de a Nara falando foram gravados na COP26, que é uma Conferência sobre Mudanças Climáticas que ocorreu a última vez em Glasgow. E foi lá que a Nia Tero conversou com ela.  

 NARA: [00:32:52] A gente não pode atropelar e nem correr, porque quem corre cansa, e quem anda alcança. E a gente quer dar passos firmes, com responsabilidade para a gente alcançar o que a gente quer, que são os nossos territórios sadios e os nossos territórios intactos, onde o meu neto, meu bisneto, vai poder comer a paca, que eu tanto amo. A nossa mensagem é que vocês não continuem no erro. A gente acredita que já houve tempo suficiente para vocês enxergarem realmente quem são os verdadeiros protetores da Amazônia. Os protetores dos territórios somos nós, porque somos nós que estamos lá. O território, ele não é nosso, o território somos nós. Nós somos os povos das águas, das montanhas, das florestas, dos cipós, das plantas, dos animais. Então, é a fauna, a flora, então já houve suficiente tempo para esse entendimento. Então, a gente espera que o Estado, ele cumpra com seu compromisso. Eu não estou falando só do Estado brasileiro não, mas dos Estados que estão aqui discutindo o futuro, que a gente não pode ficar discutindo o futuro, a gente precisa agir agora no presente, e agir agora é conversar com os povos indígenas. Muitos falam que nós não temos capacidade, que nós não temos capacidade de gestão financeira, que nós não temos capacidade de cuidar do nosso território. E a Amazônia, ela está intacta onde? Se são nos nossos territórios, onde fazemos todo o manejo, o cuidado da proteção, o reflorestamento onde está sendo impactada por sojeiros, sabe, que tentam, de toda forma, entrar nos territórios para destruir a floresta, para plantar soja, cana, colocar pasto, gado; enfim, então eu acredito que é o momento de reconhecimento das capacidades. Então, é como se o próprio, os povos indígenas, as mulheres estivessem segurando, sabe, todo o planeta, e vai chegar no momento que, se vocês não vierem conosco também para essa luta, a gente não vai conseguir sozinho. Então, o futuro depende de todos nós.  

[música de fundo] 

MARIANNA: Muito obrigada à Nara Baré, por compartilhar sua história; muito obrigada à Nia Tero; e muito obrigada também à Daniela Lerda, que foi consultora dessa história e também gravou os cantos que você ouviu no final da história. Eles foram gravados no Acampamento Terra Livre de 2022, lá em Brasília, que é uma mobilização muto importante. Nia Tero é uma fundação baseada em Seattle, nos Estados Unidos. É formada de pessoas indígenas e também não indígenas com a missão de assegurar que o cuidado e o trabalho de defesa territorial praticados pelos povos indígenas seja mantido em todos os ecossistemas vitais. Isso significa que a Nia Tero provê apoio a povos indígenas em escala global, para que possam proteger seus lares da colonização e destruição. As práticas indígenas são um dos nossos melhores guias para a gente manter a Terra habitável para os humanos, para as outras espécies e para as gerações futuras. Aqui no Seedcast, os nossos convidados representam a si mesmos, e isso não representa necessariamente as visões da Nia Tero. A gente honra as suas perspectivas honestas e as suas experiências vividas. Você pode aprender mais sobre o Seedcast e o nosso trabalho da Nia Tero no nosso site niatero.org. Esse episódio foi escrito e gravado por mim, Marianna Romano, e editado por Jenny Asarnow. A apresentadora do Seedcast é a Jessica Ramirez. O David Rothschild e a Tracy Rector gravaram a entrevista da Nara na COP26, que é a Conferência sobre Mudança Climática que aconteceu em Glasgow, em novembro de 2021. Apoio editorial adicional de John Reid, Carmen Geraldes e Nathalie Figueroa. A produção executiva do Seedcast é da Tracy Rector; nossa senior producer é a Jenny Asarnow, e nossa consultoria de produção é da Julie Keck. Produtor, Felipe Contreras. Checagem de fatos, Romin Lee Johnson. Mídia social, por Nancy Kelsey. Música tema de Mia Kami. E a transcrição de português, de Luiz Hargreaves. A gente está transcrevendo todos os episódios do Seedcast para português, e você pode encontrar eles no nosso site niatero.org. Muito obrigada por escutar, e até a próxima. 

[música de fundo com transição para música-tema]